ANÁLISE DE CUSTO - VOLUME - SUPERÁVIT PARA O HOSPITAL UNIVERSITÁRIO DA UFSC


AUTOR: JOSÉ GERALDO MATTOS

HISTÓRICO

A análise de Custo - Volume - Superávit foi institucionalizada, a partir da necessidade de se conhecer e acompanhar melhor o desempenho das unidades produtoras de serviços junto ao Hospital Universitário da UFSC, objetivando maior eficiência e eficácia.

A missão de estudar e implantar o projeto foi repassada aos membros da Divisão de Finanças do Hospital. Os técnicos tiveram como objetivo prioritário, implementar um modelo de Análise de Custo - Volume - Lucro que fosse compatível com sistema de apuração de Custos Hospitalares implantado pelo MEC junto ao hospitais universitários.

Após a sua implantação, o referido modelo tem sido submetido, periodicamente, a análise e revisão, sendo aprimorado em diversos aspectos tais como, formas de apresentação, racionalização de formulários e a introdução de novos dados gerenciais. No decorrer destas modificações nunca se perdeu de vista as dificuldades financeiras do setor da saúde e a necessidade de se gerenciar melhor os recursos públicos, dando-lhes um enfoque empresarial, mesmo que isso possa parecer paradoxal, uma vez que não existe a figura do lucro.

Porém, o superávit financeiro e orçamentário sempre foi procurado pelo HU/UFSC e a análise de Custo Volume Lucro tem se mostrado um excelente instrumento para a tomada de decisão gerencial, servindo de premissa básica para o oferecimento de um melhor padrão de saúde à população.

RELATO DA SITUAÇÃO ANTERIOR

Antes da implantação do sistema de Análise de Custo - Volume - Superávit tinha-se o conhecimento do valor do custo de produção da unidade. Porém, não se sabia em que nível de produção apareciam os déficits ou superávits quando comparados com a receita oriunda do Sistema Único de Saúde, único comprador dos serviços do HU/UFSC, uma vez que este hospital é eminentemente público.

Sempre pode-se identificar os centros de custo deficitários ou superavitários, porém, não se tinha conhecimento de como reverter os dados negativos.

O PROJETO INOVADOR

 Sabe-se que o objetivo mais importante e clássico de todas as organizações empresarias é a maximização dos lucros. Para se atingir esta maximização são envolvidas variáveis como: receita, custos, despesas, volume e nível de atividade, uma vez que o lucro é o resultado final das atividades das organizações.

Neste contexto, é de suma importância para a administração da empresa uma análise técnica que permita conhecer os inter-relacionamentos entre variáveis mencionadas e a influência das mesmas na obtenção do lucro.

Esta técnica é conhecida como Análise de Custo - Volume - Lucro, denominada CVL . Como nas instituições públicas não é visado o lucro mas sim o superávit a mesma foi batizada de Análise de Custo - Volume - Superávit, denominada de CVS.

Analise de Custo - Volume - Superávit está baseada nos seguintes pressupostos :

- Durante o período de Análise deverão permanecer constantes o preço unitário e as quantidades de serviço produzidas, sendo a receita total uma função linear dependente do volume de vendas;

- Os custos e as despesas que compõem a análise podem ser decompostos em parcela fixa e variável, sendo classificados em custo ou despesa fixa e custo ou despesa variável;

- O montante de custos fixos totais permanecerá constante para qualquer nível de produção, o que não acontece com o custo fixo médio que é inversamente proporcional ao volume de produção;

- O custo variável total será diretamente proporcional ao volume de produção, enquanto que os custos variáveis unitários permanecerão constantes a qualquer nível de produção;

- Os preços dos insumos junto aos fornecedores não variarão com o volume de compras, haverá interdependência entre os preços unitários dos insumos e a quantidade de insumos comprados;

- No decorrer do período de elaboração da análise CVS não haverá modificação no comportamento dos custos e despesas, ou seja, as políticas administrativas, o processo produtivo e a eficiência de homens e máquinas permanecerão constantes;

- A participação dos centros de custo multiprodutotres, na receita total seguirá uma ordem pré-determinada no decorrer do período de análise;

- O montante de produção e de vendas apresentará uma sincronização e não haverá mudança nos níveis de inventário.

É importante que os técnicos que realizam a análise CVS conheçam os pressupostos que orientam este instrumento de decisão, reconhecendo que tais pressupostos possuem diferentes graus de importância e validade, tendo que se observar as suas limitações.

Este tipo de análise pode ser muito importante como instrumento na tomada de decisões gerenciais e nos processos de planejamento e controle hospitalar. Em relação a estes últimos , a análise de CVS fornece subsídios para a elaboração de orçamentos e projeções de superávits, uma vez que supõe o conhecido o comportamento dos custos e despesas em relação com o nível de atividade, o qual constitui um requisito indispensável para elaboração de qualquer orçamento variável ou flexível

É de suma importância colocar que a análise de CVS pode ser aplicada com pequenas adaptações e com bom resultados nas organizações públicas.

PONTO DE EQUILIÍBRIO EM UNIDADES FÍSICAS

Ponto de equilíbrio é aquele ponto em que a receita total se iguala ao custo total , graficamente este ponto é detectado no cruzamento das linhas de receita total e custo total.

A definição formal para este ponto de equilíbrio é "aquele nível de atividade, expresso em unidades físicas ( pacientes-dia, exames, atendimentos, etc.), no qual os custos se igualam às receitas totais" Neste ponto o centro de custo não possui déficit ou superávit uma vez que está gerando recursos suficientes apenas para remunerar os seus fatores de produção, para que o centro de custo não tenha déficit. Quando o centro de custo está com produção acima do ponto de equilíbrio, está

 Pode-se definir também a "Margem de contribuição Total ( MC )" que significa a parcela de receita de vendas que se destina a dar cobertura aos custos fixos e gerar superávits.

PONTO EM UNIDADES MONETÁRIAS (RECEITA DE EQULÍBRIO)

 Corresponde a receita de vendas que cobre os custos fixos e variáveis . 

Um conceito também importante é da " margem de segurança " que é o quanto o volume de vendas pode diminuir sem que haja prejuízo para a empresa.

MÉDIA DE PERMANÊNCIA DE EQUILÍBRIO ( MPmeo )

Com à aplicação da análise de CVS junto aos centros de custos ligados a atividade fim hospitalar ( clínicas de internação, ambulatórios, emergência, etc...), sentiu-se a necessidade de trabalhar alguns indicadores gerenciais mais em nível de saúde.

Esta necessidade foi sentida com maior intensidade pela administração central do HU/UFSC, partiu-se então para a busca de alternativas que tivessem um melhor entendimento junto ao corpo clínico, de enfermagem e serviços de diagnóstico e tratamento, os verdadeiros gerentes diretos dos processos de produção de serviços hospitalares.

O primeiro indicador gerencial derivado dos mencionados acima foi a "média de permanência de equilíbrio ( MPmeo )", que significa o "tempo médio que um paciente deve ficar ocupando um leito hospitalar, onde custos para sua alta se igualam a receita gerada pela venda desta alta".

GIRO DE ROTATIVIDADE DE EQUILÍBRIO( Gro )

  O desenvolvimento deste segundo indicador gerencial seguiu o mesmo princípio do anterior, qual seja, a aproximação dos gerentes do processo de produção de serviços!

Chega-se ao giro de rotatividade de equilíbrio ( Gro ), que mede quantas vezes um leito deve ser ocupado em determinado período, no qual os custos totais se igualam a receita total de determinada Clínica de Internação.

  Este indicador gerencial representa a relação entre o número de pacientes saídos ( altas + óbitos ) durante determinado período, e o número de leitos postos a disposição dos pacientes, no mesmo período, representa a utilização do leito hospitalar durante o período considerado" .

RELATO DA SITUAÇÃO ATUAL

A presente análise passou a incorporar os relatórios de análise de custos que são mensalmente elaborados, sua utilização tem sido mais ou menos intensa durante estes 10 anos, dependendo dos enfoques dados por cada administrações.

O principal ponto positivo foi mostrar que a média de permanência de todas as clínicas do Hospital Universitário da UFSC, está bem acima da área de equilíbrio, este fato pode ser, também, detectado pela área de faturamento, quando esta passou a comparar as médias de permanência obtidas nas AIH's (autorizações de internação hospitalares) com a permanência preconizada pelo SUS.

As mudanças estão acontecendo a passos lentos, pois já existe uma consciência geral a nível de HU/UFSC que, a média de permanência deva ser reduzida gradativamente, fato este também pressionado pelo aumento da demanda reprimida por leitos, demanda esta estimulada pelo aparecimento do HU/UFSC como hospital de referência regional.

Porém, pode-se detectar que a média de permanência está intrincicamente ligada a questões conjunturais de ensino e pesquisa e a não remuneração por produtividade dos profissionais envolvidos, dificultando mudanças a médio prazo.

Outra evidência de que a média de permanência tem caído gradativamente é o crescimento da receita própria, diminuindo os déficits dos centros de custos que geram receita própria.

Ressalta-se, que para haver a geração de um superávit financeiro junto às clínicas de internação e as unidades de atendimento ambulatoriais na atual conjuntura está dependendo muito mais de um reajuste linear da receita oriunda do SUS do que uma diminuição dos custos de produção. Isto acontece porque não existe uma Cmg (contribuição marginal ) positiva ou seja os custos variáveis médios unitários são maiores que os preços médios unitários de venda.

OS OBSTÁCULOS ENCONTRADOS

 Os obstáculos para institucionalização desta análise podem ser divididos em dois, quais sejam, aqueles ligados a sua implantação e os relacionados ao ajustes dos indicadores gerenciais, ou seja, a forma final do relatório de análise de CVS.

O sistema de apuração de custos implantado pelo MEC nos hospitais da rede federal de ensino, não foi montado sobre uma plataforma que fornecesse dados para uma análise de Custo - Volume - Superávit, que pressupõe a existência de uma base de custos fixos e variáveis, logo esta etapa teve que ser criada.

Cada item de custo deve ser classificado quanto a sua incidência no produto, que ao longo dos anos formou uma boa base de dados, que vem sendo constante aprimorada pelos técnicos de custos.

Ainda neste momento teve que ser desenvolvido pela Divisão de Materiais do Hospital Univertário um sistema de administração de materiais que fornecesse o custo com material de consumo a preços de aquisição, pois os preços quando alocados na matriz de custos chegavam sempre defasados.

Um segundo software foi desenvolvido para apuração dos custos pelos técnicos do Hospital universitário de Santa Maria, este software informatizou todo o processo de apuração de custos fixos e variáveis, reduzindo o tempo de apuração e eliminando os erros que eram muitos freqüentes quando o processo era manual.

O segundo tipo de dificuldade foi fazer com que as informações geradas pela análise fossem utilizadas corretamente e da maneira mais eficiente pelos gerentes dos processos.

Estas dificuldades começaram a ser eliminadas com a definição dos indicadores gerências, puramente micro econômicos, para uma linguagem mais próxima dos indicadores estatísticos de saúde.

Isto repercutiu muito bem, principalmente, na área de enfermagem que é de fato o verdadeiro gerente de pavilhão e que no fundo gerenciam tanto a produção dos serviços quanto os custos e a receita própria

OS RECURSOS UTILIZADOS

Para o desenvolvimento dos trabalhos foi necessário a contratação de um técnico com formação em economia, isto não gerou na época uma nova contratação, foi realizada uma permuta com um servidor recém - formado nesta área. Este técnico foi encaminhado para os cursos e encontros promovidos pelo Ministério de Educação e Cultura para assimilar a metodologia e coordenar a sua implantação a nível institucional.

Já o treinamento para implantar a análise de custo - volume - superávit foi realizado na Associação Comercial e Industrial de Joinville (ACIJ), onde participaram todos os técnicos do sistema apuração de custos do HU/UFSC.

Mas adiante, foi necessário o desenvolvimento de um software para apuração de custos e um segundo para análise de custos. O primeiro software foi adquirido em outra universidade e o segundo desenvolvido por um estagiário da própria divisão de Finanças do HU/UFSC.

O investimento entre treinamento do pessoal técnico e desenvolvimento dos sistemas informatizados não ultrapassou os U$ 20.000.

A EXISTÊCIA DE PARCERIAS

Algumas parcerias foram desenvolvidas além daquelas realizadas junto a rede de hospitais públicos do MEC. A principal delas foi o convênio de cooperação técnica firmado com o Departamento de Economia da UFSC, que ajudou a desenvolver um modelo de análise de Custo - Volume - Superávit o qual deveria se adaptar às necessidades do HU/UFSC.

Em uma segunda etapa deste acordo passou-se a desenvolver um deflator de preços para valorar os estoques de materiais de consumo, junto ao sistema de administração de materiais do HU (SAM/HU), e apropriá-los a matriz de custos com valores mais próximos ao de reposição. Este deflator tornou-se muito útil também para estimar os valores das reservas das licitações de material de consumo, exigida por lei quando do início de um processo de aquisição.

Está metodologia também foi repassada a alguns Hospitais da Secretária de Saúde do Estado de Santa Catarina foram eles: Hospital Infantil Joana de Gusmão, Hospital Nereu Ramos e Hospital Celso Ramos, neste hospital chegou-se à estruturação do plano de centros de custos e à apuração de custos fixos e variáveis subsídio principal para à análise de custo - volume - superávit.

Através de alguns cursos práticos, essa metodologia foi repassada para alguns hospitais da rede federal de ensino do MEC, porém não se tem informações sobre o atual estágio em que se encontram.