A Seixas Netto

A SEIXAS NETTO – PRÓLOGO

Fonte: Alfredo Martins / GEA – Grupo de Estudos de Astronomia.

Nos anos de 1950, 1960, Florianópolis muito se assemelhava ao Desterro: estradas de barro, muitas carroças e carros de boi, ausência de iluminação pública. As idílicas praias atuais eram meros pastos e matagais semi-habitados. Mas havia um espetáculo da maior grandeza e beleza do qual os “manezinhos” não se cansavam de apreciar: as noites estreladas com o maravilhoso céu da abóbada celeste sul. Nós crianças, estendíamos as brincadeiras noturnas com a observação dos astros, num misto de encantamento e dúvidas que o universo suscitava.

Eis que apareceu um mestre, um professor de estrelas, para nos ensinar a decifrar os enigmas celestiais através do rádio e de jornais, nossas únicas mídias na educação. Ele era o famigerado A Seixas Netto, conterrâneo , legítimo nativo com imenso amor à sua terra e toda sua natureza. Dentre inúmeras coisas que estudou, a astronomia era uma de suas paixões que, para nossa felicidade, compartilhava esta sabedoria com a publicação periódica de Cartas Celestes onde aprendemos a distinguir as estrelas e constelações que tanto nos encantavam e ao qual somos gratos a ele até os dias de hoje.

Quis o destino fazer nos encontrar, prestando-lhe atendimento médico no Imperial Hospital de Caridade, onde se confirmou toda sabedoria e humanidade desta grandeza de homem, um verdadeiro imortal.


A SEIXAS NETTO – BIOGRAFIA

Fonte: Boletim da Comissão Catarinense de Folclore; 1985; Nº 37 e 38.

OBTUÁRIO POR PASCHOAL APÓSTOLO PÍSTICA

Atendendo preceito regimental, por ocasião da posse na ACADEMIA CATARINENSE DE LETRAS, na Cadeira Nº 25, como sucessor de AMARO RIBEIRO SEIXAS NETTO, tive oportunidade de tecer considerações sobre a obra literária desse meu prantadíssimo antecessor.

Vale destacar, nesta oportunidade, daquele discurso, os textos referentes a Seixas Netto.

“Espírito luminoso e sublime foi o de Seixas Netto, nascido em 2 de novembro de 1924; irmão na fraternidade universal.”

Foi astrônomo, matemático, poeta, jornalista, professor e filósofo, sabendo refletir, como poucos, a grandeza da alma e a boa índole do povo ilhéu, modelada por tradições açoritas.

Conheci Seixas com intimidade, pois frequentava sua casa, desde os idos em que residia à Rua Duarte Schutel, e guardo, como régio carinho, “GEOMETRIA DO ÁTOMO”, que editou quando trabalhava no Diário da Tarde, com dedicatória datada dos turbulentos, incertos e belicosos.

dias em que se instalara novo regime no País. Lembrei-lhe, num desses nossos últimos encontros, que já se haviam passado mais de vinte anos da oferenda, cujos termos estariam prescritos pelo decurso do tempo, carecendo, por isso, de outra, na mesma página, convalidando a afeição anterior.

Foi em “GEOMETRIA DO ÁTOMO” que demonstrou seu saber nas pesquisas atômicas. Livro profundo, técnico, científico onde Seixas, no esplendor de sua atividade, desenvolve todo esforço na geometria das moléculas atomísticas. Esse livro, sobre a física do átomo, foi recebido, com muito respeito, pelas áreas técnicas de vários países, tendo inclusive sido traduzido para o idioma de Cervantes.

Em “NEM DEUSES NEM ASTRONAUTAS”, mostrou seu conhecimento de astronomia, respondendo a interrogações sobre o universo e o nosso planeta, rebelando-se contra aqueles que invocaram seres distantes ou longínquos, para tutelar-nos. Entendeu que esse fato não se coadunava com a grandeza humana.

Publicou também, “POVOADORES DO UNIVERSO”, “GÊNESE ESTELAR” e “OS SIGNOS E OS HOMENS”. Suas obras comprovam que abandonou conscientemente os proveitos materiais da vida para ir buscar nos segredos e nas belezas do universo, a água que saciava a sua sede. Tal qual um profeta, soube interpretar inteligentemente a alma do cosmos.

Recebeu o selo da divindade. Foi daqueles a quem Orion, filho de Euríale, entregou seus instrumentos e permitiu ingressar na natureza, levantando o véu da noite para profanar as vestes puras de Diana, transformada em estrela do céu. Por certo, quem hoje olhar no firmamento estrelado, perceberá que existe uma outra luz, radiando força, sabedoria e beleza.

Como ecologista, soube defender o meio ambiente. Como folclorista, preservou a memória limpa das tradições dos ilhéus, colhendo valiosos subsídios para a nossa Comissão Catarinense do Folclore.

Cantou, com todo amor, como poeta, a vida do povo ilhéu. Simples, humano e sincero, extraiu desse convívio lições do mais alto valor.

Tombou em plena atividade, quando muito se esperava de tão bela criatura, surpreendendo a todos nessa iniciação à imortalidade, no dizer de Madame Yourcenar, em “Memórias de Adriano”.

Quando Seixas Netto faleceu, em 23 de maio de 1984, a imprensa noticiou que Santa Catarina perdia um de seus últimos “bruxos”. Não creio feliz a expressão. Seixas, como Mâncio Costa e Juvêncio Martins da Costa, tinha como todos eles, em comum, essa alma e esse temperamento florianopolitano. Não é fácil dizer o que seja esse predicado: essa alma e esse temperamento florianopolitano! Muito de poeta, de mestre, de amigo, de sábio, de cientista, de melodioso, de conselheiro, de professor, de artista, de malicioso, de irônico e, principalmente, de curioso, modela esse irrequieto homem ilhéu!

De Seixas Netto, pranteadíssimo acadêmico o qual sucedo com muita honra, guardo, reconhecido a relíquia do seu incentivo para trazer-me para cá, para esta ACADEMIA CATARINENSE DE LETRAS, sem jamais imaginar que o destino iria fazer-me seu sucessor, ferindo assim, este meu coração, porque sua ausência me é tão dolorosa. Esperava muito ser seu Confrade, jamais encontrá-lo imortalizado entre aqueles que passaram, como maiores expoentes, e que agora compõem o valoroso acervo e patrimônio cultural, moral e humanístico desta Academia de Letras.

Todavia, se estou privado de sua presença e amistosa convivência, vejo neste momento a sua felicidade por tudo haver transcorrido assim e vejo mais, a sua mão fazendo aquele amplo gesto de apresentação aos meus pares, a quem saúdo fraternalmente. Muito obrigado!

Nasceu A. SEIXAS NETTO, no dia 2 de novembro de 1924, sob o signo de escorpião.

SEIXAS NETTO fez a Escola Complementar em 1942. Nesse mesmo ano, estreou no jornalismo de Santa Catarina. Em 1945-47, fez curso de matemática, em Florianópolis. Estudou meteorologia com o Prof. JUAN YAZICH, maior meteorologista da América Latina d’então, na Universidade de Córdoba, na Argentina, nos anos de 1948-51. Fez estágio, em 1952, estudando Meteorologia Física, com o Professor JUAN MARIA BERGEIRO, do Instituto de Estudos Superiores, no Uruguai. Com esses três cursos tornou-se astrônomo.

Em 1963, fez o curso de Sistema de Ensino Comercial do Ministério de Educação e Cultura e o Seminário Pedagógico para Professor do Ensino Comercial. Fez Curso de Introdução às Relações Públicas da Escola A. Pub. da Fundação Getúlio Vargas e o Curso de Comunicação Audiovisual da Universidade Federal de Santa Catarina. Em 1965, Curso de Psicologia Aplicada à Publicidade, no Departamento Regional do Ensino Comercial.

Em 1966, Curso de Jornalismo, na Universidade Federal de Santa Catarina; e Curso de Atualização sobre Desportos e Psicologia Desportiva; nesse mesmo ano, Professor H,ONORIS CAUSA, do Colégio Pio XII. Em 1967, Curso de Técnica do Jornalismo, no Curso de Jornalismo, e ainda, Curso de Legislação Tributária e Trabalhista. Em 1968, Curso de Literatura Especializada sobre FRANZ KAFKA, na Universidade Federal de Santa Catarina.

A. SEIXAS NETTO, pertencia a inúmeras Academias nacionais e estrangeiras, dentre as quais:
– Academia Catarinense de Letras;
– Academia de Letras, Ciências e Artes, de Londrina – Paraná;
– Academia de Ciências de Roma – Itália;
– Instituto Arqueológico de Palermo – Itália;
– Instituto de Ciências Astronômica e Cosmológica, da Universidade
Leonardo da Vinci, Palermo – Itália;
– Academia Teatina para as Ciências, Pescara – Itália.
– Comissão Catarinense de Folclore (Secretário-Geral – Florianópolis – SC);
– Associação Catarinense de Escritores, Florianópolis – SC;
– Academia Marconi, Itália (homenagem Post-mortern),
– Medalha e Diploma do Mérito Municipal de Florianópolis, conce-
dido pela Câmara de Vereadores;
– Fundador do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Santa Catarina;
– Fundador da Casa dos Jornalistas de Santa Catarina;
– Verbete na Enciclopédia Brasileiros de Hoje, de Afrânio Coutinho,
dentre outras …

Livros Publicados:
– Política (1946);
– Princípios Gerais de Mecânica da Velocidade e do Movimento
no Campo Eletromagnético conjugado de matéria e energia (1951);
– A geometria do átomo;
– Povoadores do universo.

A. SEIXAS NETTO
Professor, Jornalista, Escritor, Astrônomo, Astrólogo; Meteorologista;
Pintor, Poeta; Historiador, Kardecista; Positivista; Maçom; Naturalista;
Existencialista,
Nasceu a 2 de novembro de 1924 / Florianópolis.
Faleceu a 23 de maio de 1984 / Florianópolis.


AMARO SEIXAS NETTO – O IMPREVISÍVEL

Fonte: O Boi de Mamão, No 00 / Fundação Catarinense de Cultura / Florianópolis, Nov 1979.

Diariamente, em todo o Estado , milhares de catarinenses consultam este homem de 50 e poucos anos, autodidata, residente no Estreito, em Florianópolis. Para viajar, programar o fim de semana na praia, o plantio na lavoura, ou 11 no canavial, há sempre alguém perguntando “qual li a previsão do Seixas”. Amaro Seixas Ribeiro Netto publica diariamente um boletim meteorológico no jornal Estado” e já escreveu mais de mil artigos científicos sobre Meteorologia e Astronomia. Alguns juram que ele não erra uma previsão, outros, ilhéus gozadores, afirmam que consultam a previsão para ter certeza de que vai ocorrer o contrário.

Para Seixas Netto a Meteorologia “não é olhar um termômetro”, é a arte da observação da natureza diuturnamente. Esta atitude de observação, anterior ao seu trabalho de meteorologista, o tornou um grande conhecedor da natureza e do ser humano. Ele define o homem como um complexo de absurdos e é ele mesmo paradoxal: desconsidera ciência oficiai e as instituições de ensino, “porque não ensinam, fazem o aluno pensar o que pensa o professor”, e ao mesmo tempo é diretor de uma escola nos moldes vigentes, “porque a lei exige “. Embora avesso a entrevistas – porque ‘”as pessoas se ligam em conceitos e doutrinas, não vão entender o que eu digo, vão ver da maneira deles e criar problema ” – consentiu em falar O Boi-de-Mamão. Preocupado em recuperar o sentido exato das palavras e conceitos, criticou o nome do jornal, que na sua opinião, não deveria chamar-se assim, mas “Boi Mamão”, já que a origem da brincad6Íra era um ritual para cura de bezerros.

Seixas Netto é membro de diversas entidades científicas brasileiras e estrangeiras, entre elas, a Academia de Ciência de Roma; Academia Teatina para a Ciência de Pescara; Instituto de Ciência Astronômica e Cosmológica, da Livre Universidade de Estudos Leonardo De Vinci, de Palermo; Instituto de Paleontologia e Arqueologia de Palermo; Academia Catarinense de Letras e Comissão Catarinense de Folclore.

Publicou diversos livros: Os Povoadores do Universo; Nem Deus Nem Astronautas; Clima Regional da Ilha de Santa Catarina; As enchentes do Vale do Itajaí; Geoecologia Atmosférica; O Zodíaco; e, no prelo, História das Constelações; Astrologia e Cantos Ilhéus.

ENTREVISTA AO BEL. REGIS

Como surgiu esse interesse pelo tempo? Seixas Netto: Não houve interesse no sentido comum de interesse: O que houve foi o seguinte : há muitos anos eu passei a observar que a ciência era um tanto tacanha. Nilo tem amplitude. Não tem profundidade, é uma coisa de uma dimensão só . E ela se exercita mais como um meio de vida das pessoas, que pelo interesse pela ciência em si. Aquela coisa rotineira, que não evolui, chata. E naquela época eu estudava astronomia, então resolvi me dedicar a pesquisa do tempo. Resultado : descobri uma série de fórmulas que permitem fazer previsões a largo prazo, por um ano, 10 anos, 100 anos.

O senhor descobriu coisas inteiramente novas nesse campo? Seixas: Não descobri. Já existiam. Eu descobri foi a maneira de operar essas constantes.

Como o sr. montou a aparelhagem pra trabalhar? Seixas: As pessoas são muito ligadas a aparelhagens, a coisas que não ter., muita importância. A Ciência não se faz com aparelhos. A natureza não tem aparelhos. A natureza é. E ela está aí para ser lida. Aparelhos se faz para repetir ou conferir a natureza. Mas também não têm valor nenhum.

O que teria valor? Seixas: A minha visão de ciência é um tanto chocante. Só se pode fazer ciência quando se repete a natureza. Então, a ciência é empírica. Ela é feita numa série de sucessivas experiências após o que se chega a uma conclusão, ou apanhando no ar os acasos. A ciência não é linear, ela é cheia de acasos. Todas as grandes descobertas foram um acaso.

Sim, mas não havia sempre, com um método, a procura daquilo? Seixas: O erro da coisa é a escravidão ao método. Toda metodologia é uma complicação, não evolui. A história do método em ciência começou com Roger Bacon, e o Descartes complicou a coisa. E como o método complica, as grandes descobertas sido feitas por acaso, ou quando o cidadão é completamente virgem de conhecimento. Vemos então na história da ciência uma porção de gente que não tinha conhecimento prévio. Como Ampère, que descobriu a luz elétrica, era um encadernador de livros. Não era um doutor em qualquer coisa, senão ele teria metido um par de antolhos, e só teria visto sob o prisma dele, ou da ciência da sua época, como os doutores da sua época viam. O Santos Dumont foi por acaso quem chegou à conclusão que se voa com o mais pesado que o ar. Fez o único avião do mundo que voava com a cauda para a frente . Hoje ninguém sabe fazer uma coisa dessas. O 14 Bis tem esse nome porque ele era a quilha do balão número 14. Ele, armou um cavalete para experimentar um motor, ou coisa que o valha, e viu que aquilo podia voar.

Pensei que ele já estivesse pesquisando exatamente esse tipo de aparelho. Seixas: não, ele estava pensando em sair voando com um balão qualquer.

E no seu caso também foi feito por acaso? Seixas: Tudo que é importante é feito por acaso ou por um procedimento empírico. Não se pode dizer o que vou descobrir porque se forma uma nuvem. Aí o cidadão não chega a nada.

Em meteorologia é preciso ter uma visão abrangente do universo para se chegar a alguma coisa? Seixas: O cidadão que classificou as nuvens em cumulus, nimbus etc não entendia de meteorologia e não cuidava disso. Era um biólogo, Lamarque. Então, tudo que foi desenvolvido era de gente que não era ligado a isto . Hoje só se entende que alguém possa fazer alguma coisa se se especializou na dita coisa. O que é um erro. O cidadão especializado é parado. Só sabe fazer aquilo. Se pegar uma pessoa com uma grande soma de conhecimentos, que esteja ligado a ramo nenhum, as pessoas não aceitam.

Mas seu campo de interesse é mais ou menos específico, não? Seixas: Não. Aí é outro problema. O mundo contemporâneo tem a mania de seccionar a coisas e não vê-las em conjunto. O universo é um só, ele não é picadinho . Daí é preciso ter conhecimento, não informação. Informação a gente pega em almanaque aí na farmácia.

E como se chega a esta totalidade de conhecimento de que o sr. fala? Seixas: Só pessoas especiais fazem isso. São as que rompem com tudo. É preciso romper com tudo. São os inovadores.

E o Sr. rompeu com toda uma forma de aprendizado? Seixas: Eu não rompi com nada porque eu não estava vinculado a nada . Eu não tomo conhecimento do que é convencional. Eu não sou ligado a nada.

O Sr. vive de quê? Seixas: Sou jornalista aposentado. Dirigi o Diário da Tarde. Sou correspondente científico da revista “O Cruzeiro”. Escrevo para jornais da Europa . Quando eu trabalhava também tinha esta independência e não tomava conhecimento de nada que estivesse condicionado.

Como é a sua relação com o conhecimento oficial e com a universidade? Seixas: Eu simplesmente aceito. Ela cumprindo a função dela como foi determinado, como de modo geral todo mundo aceita . Agora, simplesmente eu não vejo sentido na coisa. Não adianta criar doutrinas e teorias se essa teoria não for empírica. Modelos e teorias não resolveram nada. Escrevi um livro mostrando que há 146 teorias conhecidas sobre o universo, e até hoje ninguém conhece nada. Sobre essas teorias se gastaram rios de papel, caluniaram quem não aceitava, mataram , queimaram, crucificaram quem não as aceitavam.

Os seus livros de modo geral são sobre o conhecimento científico? Seixas: Eu escrevo com o objetivo de chegar a este argumento : é preciso entender que a decadência de conhecimento se deve ao fato de que hoje não temos filosofia. Não temos um filósofo que possa ter a estatura e o conhecimento de Aristóteles. O Aristóteles foi o cara que mais atrapalhou a evolução da ciência. Os que liam a obra dele achavam que ele sempre tinha a última palavra, não permitindo que a coisa evoluísse. Mas hoje não tem um Aristóteles, não tem um Platão. Não tem um homem que faça uma obra monumental. O homem perdeu o conhecimento do geral e se dedicou a minúcias, que, por ser particular não leva a coisa nenhuma.

É verdade que houve uma perda de conhecimento universal, mas por outro lado, a especialização não levou a um desenvolvimento material? Seixas: Não, esta especialização hoje não dá para matar a fome do mundo.

Não foram os interesses econômicos, de aumento de produtividade que levaram à especialização e à perda do conhecimento universal? Seixas: É isso mesmo. É a parte monetarista . Mas há outra razão. Por exemplo, o que é o pensamento do ser humano? O ser humano é um complexo de absurdos que nenhuma psicologia dessas que está por aí consegue explicar. Nenhum Freud, nem Adler, nem sei quem mais. Porque se cria a coisa em cima de palavras e não em cima de realidades. A primeira coisa que o cidadão inventa é uma palavra pra dizer uma coisa que todo mundo já sabe.

Aí começa a confusão porque ninguém sabe o que é a palavra. O sr. estuda astrologia também? Seixas: Eu não estudo essa astrologia de almanaque. A astrologia só é perfeitamente exata se a pessoa tiver conhecimento profundo de astronomia. Sabemos, por exemplo, que a astrologia tem a Lua . O movimento da Lua ao redor da Terra tem um pouco mais de 24 horas e neste movimento vai levando a maré. A Lua atrai a superfície líquida . Em cada 6 horas nós temos uma maré alta , depois uma baixa. Quando a Lua passa num meridiano, a maré é alta, quando na linha do horizonte a maré é baixa. Isto é astrologia, a Influência do astro sobre a Terra. A Lua atua sobre as pessoas porque atua sobre a superfície líquida. Inclusive as pessoas desequilibradas mentalmente têm a sua loucura acentuada durante a Lua Cheia. Na agricultura, planta-se na posição x, colhe-se na y. Os planetas atuam sobre a Terra porque têm campo magnético. Por isso é possível a previsão do que vai ocorrer no campo físico daqui a um ou a 100 anos. Mas não se pode prever que vou ganhar no bicho daqui há 3 horas.

Em uma ocasião o sr. fez uma crônica, na rádio “Diário da Manhã” sobre o fantasma da Pedra de S. Luís”. Qual era a sua In tenção? Seixas: Tudo tem que ter os seus fantasmas, que é justamente a sua parte alegre. Um mundo sem fantasmas é um mundo maluco como esse que temos aqui. Um mundo que não diz nada. O homem está cada vez mais feroz, um contra o outro, e todo mundo de cara amarrada . Todo mundo querendo ser, mas sem saber o quê. O que faltando para todos é um espelho. O ser, tanto humano como não, é um conjunto de duas coisas: de um espírito e de uma entidade física . E um duplo. Por isso o homem não pode entender unitariamente as coisas e precisa criar figuras. Eu penso que é preciso cultivar a parte misteriosa da vida, e quando não se tem isto é preciso criar, para que a vida possa ficar afinada com a dualidade do ser humano. Dal a razão dos duendes e dos fantasmas.

E em que condições floresce esta parte misteriosa da vida? Seixas: Para ver o que é criado pela própria mente é preciso um certo estado de espírito, uma certa sonolência. Aqui na nossa ilha e em todo vilarejo onde há uma certa calma, a mente cai em inércia , cai naquela modorra e vai criando saci, mula-sem-cabeça, e depois vai fazendo conto, contando em reunião. Eu vivi num mundo assim. A Ilha era um matagal enorme com fantasmas em tudo quanto era canto.

O que era a pedra de S. Luís? Seixas: Na Praia de Fora tinha uma pedra com dois pés gravados, na distância de uma passada, que chamavam pé de S. Luís. O Interessante é que cabia qualquer pé, o de uma criança ficava justinho, o de um adulto 44 cabia certinho. Pois arrancaram a pedra para passar uma avenida . Em torno daquele pé havia uma série de lendas. Ali, tudo se chamava S. Luís porque Dias Velho desembarcou sob a proteção desse santo. Bem, toda gente de mais de 30 anos botou a sua patinha ali. Era uma Coisa e arrancaram. É preciso compreender que uma coisa é tanto mais real quanto estiver coberta pelo véu da fantasia. A gente só pode aprender uma coisa se tiver um ponto de referência: comparar a realidade com uma coisa Irreal do lado. O véu do sonho e da fantasia é que envolve a realidade. A realidade nua nem é realidade . Aqui na Ilha havia isso : fantasmas tradicionais, como há ainda hoje na Inglaterra. Mas aqui é a “Terra do lá teve”.

Por que o sr. nunca saiu de Florianópolis? Seixas: Pra mim não existe nada mais bobo e inócuo do que viajar. O cidadão que se dedica a estudar profundamente não precisa viajar. Kant nunca saiu de Kbnigsberg. O lugar mais longe que foi , era a 10 km e se arrependeu. O conhecimento é universal. Ninguém precisa sair de Florianópolis para ter contato com o mundo.

Na década de 50 o Sr. já levantava problemas ecológicos que só hoje estão sendo debatidos. Como está Santa Catarina hoje, em termos de equilíbrio ecológico? Seixas: A destruição aqui começou em 1938 com a derrubada de toda a floresta subtropical no planalto. Primeiro foi a Araucária, depois a Canela, a Peroba e o Óleo, que não existe mais hoje. O Óleo era a única madeira que se prestava pra fazer pilão. Podia receber cacetada e não abria . Com este desmatamento o Planalto passou a sofrer seca. Uma árvore joga, em 24 horas, 200 litros de água na atmosfera . Agora imagine a derrubada de uma floresta: hoje no planalto não há mais vapor d’água em suspensão e, portanto, respira-se mal. Quem sofre do coração e vive lá. Está perdido. É preciso deixar por 50 anos a natureza se recompor. Plantar só árvores nativas. A implantação de Pinus naquela região é a maior prova da estupidez nacional.

Mas quem introduziu foi uma empresa norte americana. Seixas: Com testas de ferro. O pinus é uma árvore subpolar de floresta subártica, existente no Canadá e nos dos Estados Unidos. Seu metabolismo é o inverso do metabolismo das florestas tropicais. A nossa retira o gás carbônico e solta o oxigênio, por isso as nossas têm o caule duro. O pinus retira a água da atmosfera e, portanto, retira o oxigênio e expira gás carbônico. Isso liquida com a vida : em volta não vive uma cobra, um passarinho, nem uma aranha . Além disso ela expele um óleo que cobre os poros da pessoa e altera o metabolismo do corpo. Agora, sua fibra é muito mole, e é por isso altamente econômica para fazer pasta. Se o brasileiro fosse sério, não faria isso. A arvore não se aclimata , ela adapta o ambiente ao seu metabolismo. Pode observar que no Rio Vermelho, onde há plantação de pinus, o clima é diferente do resto da Ilha. É preciso deixar a natureza se recuperar, porque a natureza é vingativa. Cada vez que se toca numa parte que não deve, ela se rebela noutra.

E o Vale do Itajaí? Seixas: No rio Canoas e no rio do Peixe tem a poluição porque é despejado o resíduo na pasta no rio Tijucas, é o resíduo da usina de açúcar. No Vale do Itajaí é a poluição química direta por causa dos corantes das tecelagens, que são reagentes violentos. E lá altera o ar até 100 metros de altura. Além disso, durante as enchentes a água se esparrama sobre a superfície e deixa o resíduo químico.

E Florianópolis? Seixas: Como em todo lugar, tem o lixo físico : o material que não se decompõe e é jogado no meio ambiente – lata e embalagens de plástico. Precisamos criar uma ecologia sanitária. Sugeri ao prefeito Cordeiro que regulamente : o lixo só será recolhido se vier num saco ou lata a matéria orgânica, o único degradável, e no outro, o não degradável para ser incinerado. Tem ainda a poluição das baías que se tornaram duas enormes cloacas. Ali, as partículas salinas em suspensão, durante o verão, estão reduzidas em 28% do que era há 30 anos. Está decrescendo o coeficiente de salinidade da água, até o nível de água simplesmente salobra, incapaz de vida animal. Ao mesmo tempo este processo aumentará a estabilidade térmica da água, sem níveis de inversões naturais, irradiando constante calor para a baixa atmosfera, o que provocará um aumento de 6 a 11 graus na temperatura média. A poluição, aliada ao escorrimento do aterro que é a maior cretinice, dentro de 20 anos vai fechar as baías. Vamos ter o viaduto Hercílio Luz e o viaduto Colombo $alies. Por isso sempre insisti que o esgoto deve ser levado para o Oceano, e que a ponte Colombo Salles fosse construída na ponta sul. Poluição do ar não temos, mas vamos ter se vierem os carros movidos a álcool. O álcool queimado sob pressão expele o aldeído, que ataca a pele.

AMARO SEIXAS NETTO REDIGIU PARA BOI-DE-MAMÃO SUA DEFINIÇÃO DE ECOLOGIA

Estas ideias estão desenvolvidas em um livro, Geoecologia Atmosférica, publicado em 1976 pela Fundação Dr. Blumenau:

“Ecologia, no seu exato sentido, é a relação de equilíbrio entre os grupos vivos no respeitante ao metabolismo do meio atmosférico: um grupo, os vegetais, emite oxigênio e absorve anidrido carbônico; o grupo oposto, os animais, inclusive o homem, emite anidrido carbônico e absorve oxigénio. Isto equaliza o meio atmosférico, tendo como campo de troca o nitrogênio.

Tudo quanto altera o processo é antiecológico. É poluente quando altera quimicamente um dos processos; é lixo em suspenção quando interfere no campo natural. A regra geral é esta: a vida vegetal depende da vida animal, como a vida animal depende da vida vegetal. Equilíbrio ecológico decorre, da equalização entre dois sistemas vitais. Daí porque só se conseguirá um equilíbrio ecológico se permitirmos que a natureza animal e vegetal se recomponham naturalmente.

Não se conseguirá equilíbrio ecológico extinguindo espécies animais ou plantando árvores sem observar o processo natural. A natureza faz a rejeição do que lhe é imposto antinaturalmente. Por isto se deveria reservar florestais onde a natureza tivesse seu curso. Plantar vegetais por adaptação ou por aclimatação é antiecológico, porque, realmente, os vegetais não se adaptam a habitat diverso; antes, oferecem reação buscando adaptar o meio envolvente à sua atividade vital. Os vegetais “aclimatados”, realmente não se aclimatam, eles vão lentamente interferindo no meio e adaptando-o a si, desequilibrando este setor da natureza onde é intruso.

Logo, o vegetal não se adapta, ele cria em torno de si um meio igual ao de origem. Já os animais, tirados do seu habitat, não conseguem adaptar o meio a si, e não se adaptam ao novo habitat . Eles sofrem progressivamente a decadência biológica e tendem a aniquilar-se ou sofrer mutações substanciais que os descaracterizam antes da extinção final da sua espécie.”

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